A fase de grupos da Liga dos Campeões começa nesta terça-feira com uma participação reduzida do futebol paranaense. Apenas nove jogadores que têm relação com o estado estão inscritos em algum dos 32 participantes. Um círculo restrito, formado muito mais por atletas que passaram debaixo do nariz dos principais clubes do Paraná sem serem notados do que alguém que realmente tenha feito história nas equipes locais. Um retrato fiel de como a terra das araucárias ainda sofre para mandar suas revelações diretamente para grandes times europeus e para ser dominantes em seu próprio quintal.
Alexandre Pato, o mais famoso da tímida esquadra paranaense, é um ótimo exemplo desta realidade. O pai do atual atacante do Milan queria levá-lo para um teste no Paraná Clube, mas o professor que treinava o então pré-adolescente Alexandre preferiu agendar um teste no Internacional, time de grande torcida em Pato Branco e boa parte das regiões sudoeste e oeste do estado. O menino se desenvolveu e construiu sua breve história no futebol brasileiro vestindo a camisa do clube gaúcho.
Para Alex, hoje no Spartak de Moscou, o que faltou foi alguém disposto a dar-lhe uma chance. Nascido em Cornélio Procópio, ele bateu na porta de vários times da região norte, sem ser recebido. Acabou conseguindo uma oportunidade no Guarani, onde se profissionalizou, mostrou bom futebol, transferiu-se para o Internacional e de lá para a Rússia.
Naldo, zagueiro do Werder Bremen, também precisou trocar o nortão paranaense pelo Rio Grande do Sul. Natural de Londrina, o defensor seguiu ainda adolescente para o RS Futebol, mesmo time que revelou Ederson e Thiago Silva. Da equipe de Carpegiani ele passou ao Juventude e dali para o futebol alemão.
Júlio César, reserva do Benfica, mudou-se para Curitiba ainda menino, atrás do irmão, Darci, goleiro como ele. Os dois passaram pelas categorias de base do Tricolor. Enquanto Darci fazia atuações esparsas na equipe de cima, todos diziam que o grande goleiro da família era Júlio. O torcedor paranista não pôde comprovar, pois antes mesmo de chegar ao time profissional o arqueiro trocou a Vila Capanema por General Severiano. No Botafogo de Cuca, alternou grandes atuações com frangos e algum descontrole emocional. Negociado com o futebol português, fez boas campanhas no Belenenses e conseguiu um contrato com os encarnados na temporada passada.
A Vila Capanema também foi a última parada de Hilton antes de seguir para a Europa. Destaque da Chapecoense, o zagueiro defendeu o Paraná entre 1999 e 2001, quando transferiu-se para o futebol suíço. Foram dois anos de Servette, um de Bastia, cinco de Lens e a chegada ao poderoso Olympique Marseille.
Ter a chance de se destacar em um time da capital foi o que faltou a Brandão, companheiro de Hilton no OM. O atacante fez bons estaduais por Galo Maringá, União Bandeirante e Iraty, mas não o suficiente para merecer um investimento de Coritiba, Atlético ou Paraná. Sua viagem para a Europa teve conexão em São Caetano do Sul. Seus gols pelo Azulão o levaram ao Shakhtar Donetsk, onde brilhou a ponto de chamar a atenção do atual campeão francês.
Apenas três dos nove paranaenses na LC fizeram o caminho ideal – ou quase isso. Jadson, Fernandinho e Adriano fizeram história em times grandes do estado. Saíram da Baixada (os dois primeiros) e do Alto da Glória direto para a Europa, sem a necessidade de fazer um trampolim no futebol paulista. Suas negociações foram o lucro do bom início de década do futebol paranaense, com o trio de ferro consolidado na Série A e sempre pelo menos um vértice na parte de cima da tabela, brigando por título ou Libertadores.
Os três jogadores deram o azar, apenas, de cair em times “ruins de negócio”. Adriano chegou ao Sevilla em 2005, mas somente agora conseguiu a transferência para um time maior, o Barcelona. Os atleticanos chegaram no mesmo ano ao Shakhtar, também famoso por não ceder suas joias por pouco dinheiro, o que explica eles ainda jogarem em um centro periférico da Europa.
Rafinha perfeitamente poderia engrossar essa lista, mas inexplicavelmente preferiu sair do Schalke 04 no momento em que o clube formou um elenco poderoso, para defender o Genoa. Como também poderiam estar no torneio Henrique e Keirrison, negociados com o Barcelona, mas sem nunca ter efetivamente vestido blaugrana. Henrique até disputou pedaços de amistosos, mas emplaca sua segunda temporada emprestado ao Racing Santander, que só vai chegar à LC no dia do Juízo Final. Já o K9, que poderia muito bem estar defendendo o Benfica, acabou voltando para Santos e verá o principal torneio de clubes da Europa pela TV.
Participação discreta, revelações escapando pelos grandes públicos, papel secundário, decepções de onde mais se esperava um bom desempenho. O papel paranaense na Liga dos Campeões 2010/2011 não poderia ser mais condizente com o quadro atual do futebol no estado.