Há nove anos eu estava chegando de São Caetano do Sul. Com bagagem e tudo, fui para a redação da Gazeta do Povo escrever o dia seguinte à conquista do título brasileiro pelo Atlético, na véspera. Era minha primeira grande cobertura na editoria de esportes.
Uma cobertura totalmente casual. Pouco mais de um mês antes, eu havia transferido do Fun e da Gazetinha para o esporte. Por acaso fui escalado para cobrir Vitória x Atlético, da redação, pela última rodada da primeira fase. O titular, Rodrigo Sell, estava de folga. Fiz o jogo do Barradão, os dois dias de preparação para o jogo com o São Paulo e acabei ficando até o fim.
Viajei para São Caetano na véspera da partida, logo após o último treino no CT do Caju, acompanhado dos fotógrafos Valterci Santos e Rodolfo Bührer. Rodrigo Fernandes (repórter, hoje editor de esportes da Gazeta) e Antônio Costa já estavam lá desde o início da semana. Chegamos ao Anacleto Campanella muito cedo no domingo, 8 horas antes de o jogo começar, para conseguir um lugar na minúscula sala de imprensa de um estádio que não tinha a menor condição de receber um jogo daquela importância.
Daquele momento até a hora do jogo, jamais deixaríamos as posições totalmente desocupadas. Se dois saíssem, os outros três guardavam os lugares cobiçados, que alguns jornais de São Paulo chegaram a pré-marcar um dia antes. Lembro até hoje de um funcionário do estádio arrancando com gosto os adesivos da Folha e do Estadão grudados ali. “Aqui não tem essa palhaçada de reservar lugar. Senta quem chegar primeiro”, disse ele. E assim se fez. Nós ficamos na cabine, o pessoal de São Paulo, que chegou em cima da hora, empoleirou-se em cadeiras sem mesa atrás da tribuna de honra do Campanella.
As imagens mais marcantes daquele dia estão espalhadas pela internet para todo mundo ver. O gol de Alex Mineiro, Nem ajoelhado na entrada da grande área, Geninho com a bandeira do Atlético, Gustavo pendurado no alambrado, o troféu levantado no pódio. No meu acervo particular, gravado apenas na minha memória, guardo uma imagem de pouco antes do apito afinal.
Eu estava no corredor de acesso ao gramado, logo abaixo das cadeiras, esperando o portão seu aberto. Por ali também estavam Petraglia, Maculan, Marcus Coelho, dirigentes do Atlético. Senhores que eu me acostumei a ver sempre sérios, muitas vezes possessos (em algumas ocasiões por causa do que eu havia escrito). Ali, não. Tinham o maior sorriso de suas vidas, lágrimas nos olhos, andavam de um lado para o outro. Pareciam crianças que haviam acabado de ganhar a primeira bola, a primeira bicicleta, o primeiro PlayStation. Era possível ver na expressão deles a recompensa por cada dia em que eles torceram pelo Atlético em suas vidas.
Nestes nove anos falei por os três várias vezes. Em algumas entrevistas sobre aquele título de 2001, mas nunca sobre aquele momento específico, à beira do gramado, esperando o apito que confirmaria a conquista rubro-negra. Talvez nem precisasse. Tenho certeza de que aquele foi o Natal mais feliz da vida dos três e de todos os atleticanos.