O Diário Catarinense traz neste domingo um balanço da década do futebol barriga verde, definitivamente um período de recuperação para os clubes de lá. E, dado preocupante, a diferença entre Santa Catarina e o Paraná diminuiu muito – por competência deles, incompetência nossa.
Os números são claros. Em 2001, havia três paranaenses na Série A (Atlético, Coritiba e Paraná) e nenhum catarinense. Na B tínhamos Malutrom e Londrina, enquanto eles estavam lá com Avaí, Figueirense, Criciúma e Joinville. Na C, dois para cada lado: União Bandeirante e Iraty; Marcílio Dias e Tubarão. O futebol paranaense levava tímida vantagem numérica (7 a 6) e ampla vantagem qualitativa.
Para 2011, o cenário é bem diferente. Serão dois de cada UF na Série A, Coritiba e Atlético; Avaí e Figueirense. Na B, nova igualdade, com Paraná e Criciúma. Na C os catarinenses estão sozinhos, com Joinville e Chapecoense. Na D serão dois times por estado. O que aponta uma vantagem catarinense em quantidade (7 a 5) e na melhor das hipóteses um empate técnico em qualidade.
Este placar foi sendo revertido pouco a pouco. Na primeira metade da década, colhemos os frutos da reorganização de meados dos anos 90, especialmente da dupla Atletiba. O Atlético ganhou um Brasileiro, foi vice em outro, jogou duas Libertadores. O Coritiba foi uma vez ao torneio sul-americano. Enquanto isso, os catarinenses construíam a base da sua reação com dois títulos de Série B (Figueirense em 2001 e Criciúma em 2002).
Na segunda metade da década, claramente o placar mudou. O Figueirense chegou à final da Copa do Brasil de 2007, estágio ainda não alcançado por nenhum dos nossos clubes. Pelo lado paranaense, dois títulos de Série B, uma participação na Libertadores com o Paraná, dois rebaixamentos e o esvaziamento cada vez mais acentuado do futebol no interior. A gangorra foi se invertendo sem que o futebol paranaense percebesse.
Dois fatores apontados na matéria do DC são cruciais para o avanço dos clubes catarinenses e podem servir de parâmetro para a reação paranaense.
O primeiro é a combinação entre investimento em time e estrutura. Antenor Angeloni, dono da rede de supermercados que leva o seu sobrenome, assumiu o Criciúma logo após o Campeonato Catarinense. Ele já havia dirigido o Tigre em três oportunidades, a última em 1984 – nessas passagens, mudou o nome do clube de Comercial para Criciúma Esporte Clube e definiu como cores oficiais o amarelo e o preto. Foi cuidar dos seus negócios, ganhar dinheiro e agora resolveu dedicar-se novamente ao futebol.
Logo de cara conseguiu o acesso à Série B. Paralelamente, iniciou um investimento estimado em R$ 17 milhões na construção de um centro de treinamento e na reforma do estádio Heriberto Hulse. A meta é simples, formar jogadores capazes de suprir as necessidades imediatas do clube dentro de campo e dar retorno financeiro em negociações. Figueirense e Avaí fizeram investimentos similares nos últimos anos, o que explica seus bons resultados. Claro, vale a ressalva de que o Figueirense não preparou bem a reposição do time vice-campeão da Copa do Brasil, algo determinante para seu rebaixamento.
Outro ponto é a identificação dos clubes com suas cidades. Embora os times cariocas e gaúchos tenham grandes torcidas por todo o estado, Santa Catarina tem a tradição de apoiar suas equipes locais e há a cultura de empresas da região investirem no esporte. Figueira (Taschibra), Avaí (Intelbras), Criciúma (Carvão) e JEC (Taipa) têm patrocinadores catarinenses, só para ficar no exemplo do futebol. No Paraná, estes patrocínios são raros e os próprios clubes não fazem questão de criar vínculo, vide o nomadismo de Aurélio Almeida e Adap, os inúmeros times de Cascavel e Maringá ou a recente ida de Sérgio Malucelli para Londrina.
Por muitos anos o futebol paranaense sustentou a ilusão de que poderia equiparar-se ao gaúcho. Hoje, tem o Atlético estável, o Coritiba oscilando muito e todos os demais, em maior ou menor grau, lutando para sobreviver. Seria bom se os dirigentes do estado, na próxima vez que pegarem a BR-101 (carinhosamente conhecida por Briói) para curtir as lindas praias catarinenses, prestassem atenção também no exemplo de profissionalismo do futebol barriga verde.
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