Bola no Corpo

Porque jogadores dificilmente viram homens

Os jornais paranaenses de hoje falam da insurgência de Kelvin e Manoel contra seus clubes. O paranista não se apresentou com o restante do elenco, ao que tudo indica está indo para o Atlético Mineiro. O rubro-negro quer um aumento salarial compatível às propostas que tem recebido de outros clubes, caso contrário fala até em abandonar o Furacão e voltar para sua cidade, Bacabal, no Maranhão. Ambos têm todo o direito de aceitar uma proposta profissional melhor. É algo comum em qualquer profissão, não há por que ser diferente no futebol. Mas a forma que tudo é conduzido não cheira bem.

Nem Kelvin nem Manoel explicaram suas atitudes. Foram terceiros que vieram a público falar em nome deles – o pai de um, o empresário de outro. É a partir daí que as coisas começam a ficar estranhas. As duas posições são fortes, a curto prazo podem até se configurar como abandono de emprego. Se partiu dos jogadores, eles deveriam ter a mesma firmeza demonstrada ao tomar essa atitude para vir a público e responder por ela.

 

Parece muito mais factível que haja um problema de orientação – ou falta dela – nos dois casos. Orientação para deixar o clube em nome de uma proposta melhor custe o que custar. Ou falta de orientação para saber que Paraná e Atlético merecem ser tratados com o mínimo de respeito, por terem sido os clubes que colocaram os dois na vitrine, que permitiram que seu talento nato se desenvolvesse e fosse visto por outras equipes.

 

Os jogadores de futebol aceitaram a condição de ter sua vida comandada por terceiros mesmo quando houve uma brecha para eles cuidarem do seu nariz. O ganho de poder dos empresários a partir da Lei Pelé é menos culpa da legislação que dos jogadores e clubes. Os atletas, em regra, acharam mais cômodo ter sua carreira conduzida por outra pessoa, seguir escravo, mas de um outro senhor. Os clubes nunca se preocuparam seriamente em formar os jogadores para que eles se tornassem autônomos, senhores do seu destino e, principalmente, capazes de enxergar e construir uma vida além do futebol.

 

Os responsáveis pelas carreiras de Kelvin, Manoel e outros garotos – e os próprios atletas – deveriam se preocupar em, desde cedo, se preparar para viver longe do futebol, caminhar com as próprias pernas. Infelizmente, não é isso que acontece. A preocupação é sempre com o imediato. O contrato melhor em um time médio do Leste Europeu, o carro do ano, a roupa de marca, a mulher para curtir à noite. Há um empresário de grandes jogadores que aluga um apartamento próximo ao escritório dele para que seus jogadores usem de “abatedouro” de maria-chuteira.

 

Ronaldo matou a questão em entrevista recente à Isto É Dinheiro: a maioria dos jogadores não sabe fazer nem Imposto de Renda, o que dizer fechar um contrato de publicidade. São jogadores que passam a carreira falando em fazer o pé de meia, sem perceber que o verdadeiro pé de meia não está no contrato milionário, mas sim em se transformar em um homem capaz de cuidar da própria vida.

This entry was published on 4 de janeiro de 2011 at 14:14. It’s filed under Defesa arrojada and tagged , , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

One thought on “Porque jogadores dificilmente viram homens

  1. Luiz Eduardo on said:

    Excelennte post. Aliás, excelente como todos! Conheci seu blog hoje e achei simplesmente ótimo! Parabéns!
    Sobre o tópico, vale a pena falar só uma coisa: que os clube se omitem em orientar os jogadores.
    Omissão que é perversa e prejudica o próprio clube. As mudanças nas negociações de jogadores depois da Lei Pelé associada a formação de um mercado milionário que ocorreu a partir da década de 90 ainda não foi absorvida pela gestão dos clubes brasileiros. E nesse panorama os paranaenses sofrem ainda mais, pois tem que batalhar muito para ganhar a visibilidade dos maiores times do Brasil e tendem a ter ainda mais dificuldades para conseguir segurar seus jogadores, que acabam indo para times de segundo escalão europeu, com grandes chances de colocar carreiras com grande potencial no ostracismo.
    A sua coluna leva a uma bela reflexao de que formar jogadores não é apenas ensinar técnica e tática do futebol, mas também ensinar a ser homem.
    Parabéns novamente e um abç.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.