Já estava no ar o post de ontem sobre Manoel e Kelvin quando apareceu a informação que o goleiro Neto não queria continuar no Atlético. O roteiro era, em regra, o mesmo: proposta irrecusável, muito dinheiro para a cabeça do moleque, necessidade de valorização etc . Só não teve a irresponsável ameaça de cabular a reapresentação. Hoje, Neto fechou com a Fiorentina, por 3,5 milhões de euros. Escolheu trocar a condição de ídolo precoce do Atlético, com carreira recém-iniciada na seleção brasileira, por uma aposta de risco na Itália. Neto terá três meses – os três primeiros meses vivendo em um novo país, com cultura, idioma e companheiros diferentes – para definir se passará os próximos anos esquentando banco ou efetivamente jogando na Fiorentina.
A Fiorentina atravessa um momento de transição, depois da ótima campanha na Liga dos Campeões passada, em que passou em primeiro no grupo do Liverpool e foi eliminado pelo Bayern nas oitavas de final com intervenção decisiva da arbitragem. Cesare Prandelli trocou o clube pela seleção italiana. Sinisa Mihailovic, ex-auxiliar da Internazionale e com pouca experiência como técnico principal, assumiu o cargo. E iniciou o seu primeiro trabalho à frente de um time de médio para grande já com algumas baixas. O meia Jovetic machucou-se gravemente e só volta em março. O atacante Mutu retornou apenas em outubro de sua segunda suspensão por doping e ainda não recuperou a melhor forma. Ainda em outubro o goleiro Frey também se machucou. O reflexo está na tabela. A Fiorentina está em 15º, posição desproporcional à qualidade do seu time.
Aí está a primeiro risco que Neto irá enfrentar, o de entrar em um time que precisa de soluções imediatas. Uma delas é no gol. Frey, titular e ídolo da torcida, só volta em abril. Os dois reservas, a exemplo do titular na casa dos 30 anos, não têm agradado. Boruc, goleiro polonês com experiência em Copas do Mundo, assumiu a condição de titular, sem conseguir uma grande sequência de atuações. O titular no último jogo antes do recesso de fim de ano foi o sérvio Avramov, terceira opção no elenco.
Há, portanto, uma brecha para Neto aproveitar. Se ele tiver uma adaptação imediata, convencer Mihailovic nos treinos de que merece uma chance de titular e, acima de tudo, aproveitar essa chance, terá três meses para firmar-se no futebol italiano e mostrar à diretoria viola que vale, até, aceitar no meio do ano uma das recorrentes propostas por Frey. Se tudo isso acontecer, Neto pode repetir em Firenze a ascensão meteórica que teve na Baixada, sem abalar seu futuro próximo na seleção brasileira.
O mais provável, porém, é que Neto passe pelo mesmo processo de outros jovens contratados por clubes europeus. Um período de adaptação que leve a uma entrada gradativa no time titular. Nesse caso, Neto não só deixaria de ser titular e ídolo do seu time (situação dele no Atlético) como perderia espaço na Seleção, podendo comprometer, até, sua ida aos Jogos de Londres. Precisaria de uma dose extra de paciência para recomeçar do zero.
Há quatro jovens brasileiros na Fiorentina nesse estágio de adaptação: o goleiro Marcos Miranda e o atacante Ryder Matos já integrados ao elenco profissional; o zagueiro Alan Empereur e o ala-direita Everton França na base. Havia um quinto, bem conhecido do público paranaense. O atacante Jéfferson, que deixou o Paraná em 2008. A expectativa de virar titular rapidamente no futebol italiano não se realizou, as poucas oportunidades com a camisa viola não foram aproveitadas e ele começou a ser emprestado: Frosinone (Série B), Cassino (Série C2) e Eupen (futebol belga). Um caso em que a pressa de jogar na Europa significou um atraso na carreira.
Outro exemplo, bem mais próximo de Neto, é Guilherme. Revelado pelas categorias de base do Atlético, ele foi negociado com o Lokomotiv Moscou em 2007, aos 21 anos, com menos de dez jogos como titular do Furacão. Chegou à Rússia como quarto goleiro. Esquentou banco, sumiu da mídia e da memória dos torcedores. Foi ganhando espaço gradativamente. Em 2010, três anos depois de deixar o Brasil, fez a temporada inteira como titular, foi o jogador do Lokomotiv com mais minutos em campo na Liga Russa. Ganhou o espaço que sonhava ao deixar o Atlético, mas não sem ralar e esperar muito.
Seja Jefferson ou Guilherme o parâmetro, eles são os exemplos mais comuns do que acontece com um jovem brasileiro que vai jogar na Europa. Certamente sumir ou esperar longos anos para ganhar espaço não fazem parte dos sonhos de Neto na Fiorentina. Mas é fundamental que ele, em meio à empolgação com os milhares de euros oferecidos pelos italianos, tenha parado para pensar nessas possibilidades. A não ser que ele aposte que conseguirá fazer seu nome em três meses. Uma aposta de risco em si mesmo.
* Post com a colaboração imensa, gigantesca e fundamental dos companheiros Leonardo Bertozzi e Marcus Alves.

É o famoso “anda o muere”. Digamos que o prestígio da carreira dele está em jogo. Vale lembrar que o Júlio César só foi para a Inter com 26 anos e ainda passou por empréstimo ao Chievo.